Ser mãe é padecer no paraíso (com culpa)

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“Não acredito que ele já fez coco de novo! Acabei de trocar a fralda” CULPA!
“Eu tenho um filho de 1 mês e meu sonho é sair de casa, não avisar pra ninguém onde eu to, e ter algumas horas de paz.” CULPA!
“Estou detestando amamentar. Dói e não é tão mágico como dizem” CULPA!
“Não acredito que ele já acordou! Mas não são nem 5 horas da manhã! Me dá vontade de deixar ele chorando e fingir que não ouvi. Preciso dormir!” CULPA!
“Ai que saudade da época em que eu podia dormir durante 6h seguidas” CULPA!
“Essa criança não para de chorar! Meu Deus! Quero sumir!” CULPA!
“Preciso de um tempo pra mim, não posso ficar com meu filho agora” CULPA!
“Minhas amigas que não são mães estão indo pro bar… queria tanto tomar uma cerveja” CULPA!

E aí, se identificou com alguma dessas frases (ou todas!)? Parece que junto ao resultado “positivo” no teste de gravidez surge para a mulher o fardo da culpa. Então, ela passa a se sentir inadequada e “menos mãe” por ter sentimentos negativos, uma vez que a maternidade é pintada pela mídia e pela sociedade como uma experiência exclusivamente encantadora e prazerosa.
Sentir cansaço, sentir-se irritada porque não aguenta mais ouvir choro de bebê, considerar a amamentação algo desagradável ou doloroso, querer ter um tempo sozinha, ter vontade de se trancar no banheiro pra poder tomar um banho de mais de 2 minutos (ou pra chorar porque está se sentindo sufocada) NÃO TE FAZ MENOS MÃE. Passar por qualquer uma dessas situações (ou todas!) não te transforma em uma mulher horrível e não significa que você ama menos seu filho do que aquelas mães que acordam e dormem com um sorriso na cara (elas existem?). Eu ouso dizer que toda mãe já sentiu algo negativo em relação à maternidade.

Ao engravidar e se tornar mãe você abriu mão de diversas coisas. Eu não preciso citá-las, você sabe quais foram. Você fez a escolha porque os pontos positivos pesam mais que os negativos, mas isso não quer dizer que não existe lado ruim! Você viveu anos da sua vida sendo só você, precisando cuidar só de você; a responsabilidade da maternidade assusta, dá medo! Você podia tomar decisões por si mesma, de acordo com seu desejo, e agora tem uma pessoa que depende de você. Como dizer que isso é somente maravilhoso? Não dá! lindo, a maternidade é encantadora, os filhos são apaixonantes… mas você PODE sentir-se cansada, irritada, esgotada, pressionada e tudo mais. Sem culpa! Manda essa aí embora… aceite os sentimentos negativos, aceite que tudo nessa vida tem um lado ruim e um bom. E, principalmente, lembre-se de que você não é a única pessoa que se sente assim… quanto mais a gente puder falar disso, das coisas ruins da maternidade, menos culpa… parece que ela vai se diluindo com as palavras…

Está difícil lidar com a maternidade sozinha? Está complicado segurar a pressão e a responsabilidade? Não hesite em procurar ajuda. Existem psicólogos treinados para auxiliá-la a passar por essa fase e até para te mostrar que o que você está sentindo é normal e que isso não te faz uma pessoa pior! A maternidade, embora tenha aspectos negativos, não deve se transformar num sofrimento. Busque ajuda! E, acima de tudo, manda a culpa embora! Perdoe-se. A perfeição não é humana!

 

Maria Cecília Schettino
psicóloga clínica e perinatal, no Rio de Janeiro.
Autora do Maternidade no Divã (www.maternidadenodiva.com), blog sobre psicologia, maternidade e desenvolvimento infantil.

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